Pela primeira vez em meses, cheguei cedo do trabalho. Joguei as chaves na aparadeira que fica ao lado da porta, fui até a cozinha, tomei um copo de água gelada e subi para o meu quarto, pretendendo me dar ao luxo de um banho de banheira, quente, perfumado e demorado.
A nostalgia, o cansaço, a sensação de incapacidade, abandono e tristeza vêm me perseguindo a meses. Uma tensão toma conta dos meus ombros. Uma dor de cabeça irritante me acompanha a cada dia, e eu sinto que tudo isso está acabando comigo.
Tiro a roupa e prendo meus cabelos em um coque folgado, enquanto ouço a água encher a banheira. Me aproximo e mergulho meus dedos para testar a temperatura. Ponho os sais de banho, retiro o robe e entro nela, como se a minha vida dependesse disso.
Lembranças irrompem em minha memória. Da luta dos meus pais para manterem meus irmãos e a mim a quase pão e água. Das minhas roupas surradas e das risadas de desdém das outras crianças. Do olhar de mágoa no rosto da minha melhor amiga, enquanto me via beijando o cara por quem ela era apaixonada. Das noites de festas e das notas baixas nas provas das manhãs seguintes. Da escolha de um curso universitário que me proporcionaria mais dinheiro no lugar do que eu realmente gostaria de cursar.
Com os olhos fechados, sinto as lágrimas descerem por meu resto, enquanto um grito abafado tenta subir por minha garganta. O grito não sai. As lágrimas rolam e as lembranças continuam.
Lembranças das coisas que deixei de fazer e das que fiz por obrigação. Das viagens que não fiz. Dos livros que não li. Dos abraços que não dei. De não ter agradecido aos meus pais por serem os melhores do mundo. De não ter dito aos meus familiares que os amo. De não ter pedido perdão à minha melhor amiga quando deveria. De não ter ajudado alguém que precisava. De não dar bom dia ao porteiro do meu prédio ou ao zelador do meu trabalho. De estar aqui, presa nesse apartamento, lamentando não ter vivido os sonhos que um dia tive.
Sinto a luz do banheiro piscar. Um som estridente tapa meus ouvidos. Meus membros adormecem e minha respiração fica lenta. Me sinto sufocar, afogar, submergir.
Acordo assustada e olho em minha volta. Não sei quanto tempo passei aqui. Não sei quando exatamente adormeci em minha banheira, nem quando. Enfim entendi que a tristeza que envolve a minha vida é culpa dos fantasmas. Fantasmas de um passado não vivido. Fantasmas da pessoa que eu deveria ser. Fantasmas das lembranças do que eu vivi.
Saio da banheira, visto o robe e me olho no espelho. Olho a mulher que venceu dificuldades. Olho a mulher que perdeu muito, mas que conquistou muito mais. Olho a mulher que sabe que não pode descontar as frustrações nos outros, porque não é deles a culpa. Olho a mulher que percebeu que não se vive de passado. Que é preciso ser forte. Que é preciso ser eu.
Hoje venci os fantasmas do meu passado, vou fazer as pazes com eles e deixá-los lá, onde nunca deveriam ter saído. Vou olhar para frente, e viver cada dia em sua plenitude. Como se cada um deles fosse o último da minha vida. Não vou lamentar mais, porque a vida é curta e o amanhã pode nunca vir.
























